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sábado, 6 de dezembro de 2008

epitáfio de um crepúsculo

naquele campo de futebol, a areia, castigada pelos raios cearenses do sol à pino, disputa pequenos hectares com a grama viva. hélices dos moinhos de vento - de repente fincados ao solo por uma invasão marciana - dançam em harmonia com a gaita que enebria nossos ouvidos. e o cenário natural, em movimento, traz e leva carnaúbas que servem de enfeite à paisagem de folhas secas.

já na volta, às costas ficam o brilho do sol nos contornos das carnaúbas e os grãos de areia com função de citoesqueleto atmosférico. em clima de festa, sol e areia e música comemoram, de mãos dadas, com o vento. os convidados agora ocupam o campo de futebol - não seria o salão? - e ali todos são bem-vindos, pois o pôr-do-sol é o anfitrião. os convidados de honra, o blues e sua gaita, o vento e suas ondas, a areia e seu baile, protagonizam impecavelmente o corpo de baile deste fim de tarde - quase noite - in memoriam.
terça-feira, 4 de março de 2008

um jazz improvisado

Mesas de granito congestionavam a praça de alimentação. De qualquer modo, elas refletiam as diversas luzes que me assaltavam o limitado horizonte visual. No meu horizonte mais próximo, um garotinho dentuço teve alguns espasmos como se fosse jogar pra mesa um bando de queijo gorduroso que provavelmente já lhe entupia as veias. Daqui consigo ver a comida amarela sendo mastigada pelo garoto e, a seu lado, o pai de barbas grisalhas a mergulhar os dedos não tão cabeludos no cabelo sedoso, demasiadamente sedoso, do dentucinho. O velho é vesgo e gargareja o refrigerante assim que o coloca na boca. Enquanto gastei meu tempo escrevendo isso, os dois se foram e a atração do horizonte passou a ser uma família que ocupava três mesas de granito. As crianças, de cabelos engomados, devoravam lanchinhos do Mc Donald’s e o que possivelmente é o pai, pois também exibe a cabeleira engomada, morde o sanduíche com uma enorme cautela para não pintar de manchas a camiseta semelhante a de todo jogador de golfe.

Logo à frente, postados em um palco bastante humilde, dois sujeitos arriscam um jazz e arrancam duas ou três palmas. Mas a verdade é que essa praça é toda muito desafinada. O ar reluz cheiros enjoentos pra caramba (não sei mais onde começam os perfumes e menos ainda em que pele terminam as frituras), olhares pouco envolventes e bastante inclinados para o umbigo, conversas esporádicas e certamente muitas blusas de listras, de quadrados e, naturalmente, de marca. Isso tudo faz meu nariz entortar quase tanto quanto a fritura de pastel que me incomoda e arrepia repetidas vezes.

O granito da minha mesa reflete oito lâmpadas da praça de alimentação. E o granito da mesa vizinha reflete o letreiro do Bob’s. Prefiro o meu granito; o pouco do que vejo nele me faz querer mergulhar no mundo que tá de cabeça pra baixo, em que daria para pisar no reflexo das oito lâmpadas e escurecer o metro quadrado em que me apoiei para descrever uma praça congestionada por uma atmosfera de jazz desafinado.

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

a dedo, um conto de amor

De forma categórica, sentaram à mesa na hora do jantar exatamente como faziam há anos. Mil voltas o mundo poderia dar enquanto ali estivessem; nada perceberiam. O momento já poderia ser registrado como ritualístico, ainda que, durante, nenhuma palavra essencialmente necessária fosse proferida. O horário sagrado era às sete horas da noite, porém atrasos eram admitidos, uma vez que Miguel participava de um grupo de estudos literários que, por não ser adepto a horários de encontro, era considerado inovador. Essas reuniões entre amigos eram feitas na cafeteria Portugal, na mesma mesa sete, há sete anos. A razão do número da mesa se deve à crença de que esse é um número perfeito e, obviamente, já foi bastante discutido e inserido em narrativas já elaboradas pelos participantes do grupo.

Eram sete horas da noite de uma quinta-feira. Miguel encarava o prato quadrado e estampado sem interesse. E esse comportamento do namorado nunca fora percebido por Clementine. Ambos saboreavam seu jantar em uma constante luta entre egos e temperos. A mesa circular permitia maior aproximação entre os corpos, mas maior repulsão entre as almas que, pesadas, não conseguiam contornar o ângulo de 180º onde poderiam encostar e repousar o coração. Corpos e almas não mais eram discernidos pelo peso, pela matéria, Clementine e Miguel tornaram-se meros bichos modificados pelo convívio social.

Miguel dizia aos amigos poetas, entre uma tragada e outra de charuto, que Azevedo havia retratado de uma boa maneira real-naturalista a relação entre homens e mulheres em “O cortiço”. Fazia referência a tal obra para descrever a relação com sua namorada C.K. Os amigos, na tentativa de desvalorizar as dores do companheiro, riam e tossiam e utilizavam o corpo para se manifestar irreverentemente e faziam comentários que deles podem ser extraídos as seis palavras: por isso que prefiro as putas!

De fora, eu podia flagrar a situação, reportá-la e compará-la a outros tantos curtas feitos por outros grandes cineastas. Não me parecia suficiente misturar o comportamento distante, literalmente, de meu amor platônico ao meu desejo de ser a chapliniana e garota fudida, Clementine. Tentando fazer uso da razão para organizar e analisar os fatos que, por serem tão abstratos, dificilmente poderiam ser encaixados à minha vida, tão tentada a respirar o concreto, procurei não misturar vida pessoal e vida profissional. Ser roteirista não é fácil para quem amou vozes e palavras ao invés de beijos e abraços... Hoje, não tão velha para sentir o amor pela sétima vez, apenas gostaria que meu Miguel, esteja na Terra ou no céu, não mentisse quando diz que é meu, pois meu coração, já abraçado ao dele, consegue ver o preto e branco do arco-íris (e suas sete cores) que existe na sinceridade de seus sorrisos e na imperfeição de suas palavras.

sábado, 3 de novembro de 2007

All of the King's horses and all of the King's men can never put the right words back together again

   quando eu quero e não consigo escrever (o que é raro, não sou escritor ou poeta, e mesmo que queira ser, só escrevo quando penso em algo e já vem pronto, ou leio algum Drummond, Bandeira ou todos esses outros que leio) eu volto aos básicos da escrita quase que inconscientemente. não gosto disso, me sinto um medíocre, me sinto como um escritor de quinta que viu um gato morto quando estava bêbado e voltava pra casa, um apartamento de meio quarto, onde se senta toda noite querendo lembrar do gato morto do dia pra poder escrever mais um glorioso conto Bukowskiano. e não me importa se me dizem, enquanto vejo uma peça ou tomo um café na padaria, que ser o que sou, na minha idade, é algo maravilhoso, e que devo continuar assim, que algum dia compro um livro seu. não quero tapinhas de sorriso amarelo e bigode me dizendo mais nada. quero ser novo, sim, revolucionário do meu jeito. um beber, um melamed, um chacal, um cep 20000.
   daí me bate um travis no ouvido e esse vira mais um texto medíocre, um vômito de referências, uma heineken na geladeira dako das casas bahia na semi-cozinha. uma música clássica em midi. e ele se importa, ele se preocupa, se o futuro não for o das idéias, não sabe o que faz da vida ou da morte, pois quer viver e morrer da arte. arte melancólica, básica, anacrônica, não importa, desde que ainda arte. mesmo que hermética, romântica e pseudo-gullaresca. mas ele se importa, mas não se importa, e continua em frente, e cada passo besta e desconcertado que dá, mais um tapa bigodudo no ombro e mais um passo desequilibrado.
   penso, penso e, por fim, sinto. não há amanhã. quero ser tudo hoje e amanhã, e depois de amanhã, e ainda hoje, tudo de novo. quero meu dia da marmota, meu feitiço do tempo, com direito a bill murray e tudo. quero que seja assim, que eu lembre de você quando abro a janela e dê vontade de escrever, mas sem a mediocridade habitual. apenas Pura Poesia. 'Cause all i need is You, i just need You.
domingo, 26 de agosto de 2007

vento no litoral - legião urbana

De tarde quero descansar, chegar ate a praia e ver
Se o vento ainda está forte
E vai ser bom subir nas pedras
Sei que faço isso pra esquecer
Eu deixo a onda me acertar
E o vento vai levando tudo embora
Agora está tão longe
Vê, a linha do horizonte me distrai:
Dos nossos planos é que tenho mais saudade,
Quando olhávamos juntos na mesma direção
Aonde está você agora
Além de aqui dentro de mim?
Agimos certo sem querer
Foi só o tempo que errou
Vai ser difícil sem você
Porque você está comigo o tempo todo
E quando eu vejo o mar,
Existe algo que diz,
Que a vida continua
E se entregar é uma bobagem
Já que você não está aqui,
O que posso fazer é cuidar de mim
Quero ser feliz ao menos
Lembra que o plano era ficarmos bem?
- Ei, olha só o que eu achei: cavalos-marinhos
Sei que faço isso pra esquecer
Eu deixo a onda me acertar
E o vento vai levando tudo embora
domingo, 15 de julho de 2007

como nos filmes

já era a segunda vez desde que deitaram em que ela se sentia pequena. talvez porque seus seios pareciam se perder nos pêlos e dedos dele, ou porque ele calçava o mesmo enorme número 44 do pai dela. ainda que não fossem bons motivos para representar tal sensação, o coração de sophie era delicado, os delicados não têm resistência. "cafeína! preciso!", de súbito lhe ocorreu uma vontade. desvencilhou-se com dificuldade do enorme braço de Ari e pulou da cama enrolada no lençol. preparava o café na caneca que havia dado para Ari no dia dos namorados. nela, gravara: "meu gigante, amo-te. por sophie". 'meu gigante'... ouviu passos silenciosos e os reconheceu. ele veio sorrateiro naquele macio rastejar de serpente, como de costume, como ele sempre fazia, mas isso não significava que fosse de seu agrado, de jeito nenhum!ele, com seus olhos incertos e certezas azuis, sussurrou algo como "volte para a cama, querida". era quase insuportável ouvir a voz de Ari e quase que automaticamente sentir um formigamento nas entranhas. sophie beijou-lhe as mãos como gostaria de ter beijado as mãos sempre distantes de seu pai e disse "vou só tomar um café, tá?"

Ari arrastou os chinelos de volta pro quarto acompanhado pelos cinco sentidos de sophie e antes de fechar a porta, disse-lhe: "amanhã é nosso grande dia...sei que está ansiosa". lançou à ela a doçura de um último olhar e desapareceu como um vulto diante da escuridão da cozinha. sophie abriu a última gaveta do armário e puxou por debaixo dos panos de prato nunca tocados pelo noivo um maço de cigarros. enquanto fumava, observou da varanda a lua cheia, tão poética, tão distante. sua vontade era de congelar aquela imagem para sempre; a fumaça do cigarro bailava com o vento, e a lua batia palmas ecoantes, vibrando no ritmo da dança. ao final do baile, lua e fumaça se encaixavam num romântico beijo, ruborizando o céu sem nuves, sem estrelas, sem qualquer sinal de luzes extraterrestres.

sophie apagou a ponta do cigarro no parapeito e soltou um "tchau" em voz alta na esperança de que todas as pessoas do mundo pudessem sentir um ventinho quente ao pé do ouvido... ela riu baixinho.

deitou-se com cuidado ao lado de Ari e seguindo a tradição de todos os outros dias de sua vida desde criança, fez uma pequena oração. dessa vez não usou referências a jesus, nem a deus, nem pediu para que seus pais fossem abençoados. seu único desejo era pegar logo no sono e não se incomodaria se isso tivesse acontecido durante sua prece.

alguns minutos após ter silenciado a mente, sophie sentiu os beijos de Ari tomando-lhe o pescoço. de certa maneira, ela tinha certeza de que isso aconteceria. ficou parada enquanto ele colocava os longos braços e grossos dedos por dentro da camisola de cor azul. não sabia o que estava esperando, mas, de fato, sophie esperava. Ari, controlado por algum instinto animalesco, acariciava e lambia sua presa como se ela representasse o seu maior desejo, o desfecho de sua libido, a protagonista de suas fantasias.

tomada pelo estopim da raiva e pela sede de vingança, sophie montou em Ari. acomodou as pernas entre ele e, de olhos fechados, encaixou-se de qualquer maneira e galopou e segurou aquele órgão como um maestro que rege uma orquestra. sophie não pensava em nada. na mente de Ari, materializações de anseios agora acalmados. entre os dedos dele, mistura de seio e suor; entre os dedos dela, crescente fúria inchava de prazer.

de repente, no meio de toda aquela orquestra animalesca de sons e gestos firmes, sophie vislumbrou uma brilhante estrela pela janela e, quase no mesmo segundo, Ari soltou um grito de dor. seu coração havia sido fisgado por um orgasmo e, logo depois, por um imobilismo eterno... só quem ama conhece a eternidade.

ela ainda mirava a estrela. sentia seu corpo pulsar... ou era aquele minúsculo ir e vir da luz da estrela? sophie permaneceu ali, dona daquele enorme ser que tinha o olhar vidrado no teto... ou talvez no céu.

sophie levantou-se, arrumou sua bolsa, vestiu o casaco, deu o último beijo na testa do finado Ari e sussurrou, na esperança de que todas as pessoas do mundo pudessem sentir um ventinho quente e moralista ao pé do ouvido, sobre haver gente que é feita para viver e gente que é feita para amar.

quarta-feira, 13 de junho de 2007

Odisseu

não me adianta nada
          esse relógio
          que me retarda as horas
          e os fios brancos de cabelo

se, enquanto me perco
          nesse mar valentino
     com sua canção,
               Sereia,

pesco palavras
          como peixes
     desse café amargo
          e, faminto,
          as engulo rapidamente
               (são elas
               que me mantêm
                    vivo)

já estou enjoado dessa jornada
          desse vai e vem matutino,
          miro o horizonte
               e realizo
que nunca
       nunca mais volto pra casa