já era a segunda vez desde que deitaram em que ela se sentia pequena. talvez porque seus seios pareciam se perder nos pêlos e dedos dele, ou porque ele calçava o mesmo enorme número 44 do pai dela. ainda que não fossem bons motivos para representar tal sensação, o coração de sophie era delicado, os delicados não têm resistência. "cafeína! preciso!", de súbito lhe ocorreu uma vontade. desvencilhou-se com dificuldade do enorme braço de Ari e pulou da cama enrolada no lençol. preparava o café na caneca que havia dado para Ari no dia dos namorados. nela, gravara: "meu gigante, amo-te. por sophie". 'meu gigante'... ouviu passos silenciosos e os reconheceu. ele veio sorrateiro naquele macio rastejar de serpente, como de costume, como ele sempre fazia, mas isso não significava que fosse de seu agrado, de jeito nenhum!ele, com seus olhos incertos e certezas azuis, sussurrou algo como "volte para a cama, querida". era quase insuportável ouvir a voz de Ari e quase que automaticamente sentir um formigamento nas entranhas. sophie beijou-lhe as mãos como gostaria de ter beijado as mãos sempre distantes de seu pai e disse "vou só tomar um café, tá?"
Ari arrastou os chinelos de volta pro quarto acompanhado pelos cinco sentidos de sophie e antes de fechar a porta, disse-lhe: "amanhã é nosso grande dia...sei que está ansiosa". lançou à ela a doçura de um último olhar e desapareceu como um vulto diante da escuridão da cozinha. sophie abriu a última gaveta do armário e puxou por debaixo dos panos de prato nunca tocados pelo noivo um maço de cigarros. enquanto fumava, observou da varanda a lua cheia, tão poética, tão distante. sua vontade era de congelar aquela imagem para sempre; a fumaça do cigarro bailava com o vento, e a lua batia palmas ecoantes, vibrando no ritmo da dança. ao final do baile, lua e fumaça se encaixavam num romântico beijo, ruborizando o céu sem nuves, sem estrelas, sem qualquer sinal de luzes extraterrestres.
sophie apagou a ponta do cigarro no parapeito e soltou um "tchau" em voz alta na esperança de que todas as pessoas do mundo pudessem sentir um ventinho quente ao pé do ouvido... ela riu baixinho.
deitou-se com cuidado ao lado de Ari e seguindo a tradição de todos os outros dias de sua vida desde criança, fez uma pequena oração. dessa vez não usou referências a jesus, nem a deus, nem pediu para que seus pais fossem abençoados. seu único desejo era pegar logo no sono e não se incomodaria se isso tivesse acontecido durante sua prece.
alguns minutos após ter silenciado a mente, sophie sentiu os beijos de Ari tomando-lhe o pescoço. de certa maneira, ela tinha certeza de que isso aconteceria. ficou parada enquanto ele colocava os longos braços e grossos dedos por dentro da camisola de cor azul. não sabia o que estava esperando, mas, de fato, sophie esperava. Ari, controlado por algum instinto animalesco, acariciava e lambia sua presa como se ela representasse o seu maior desejo, o desfecho de sua libido, a protagonista de suas fantasias.
tomada pelo estopim da raiva e pela sede de vingança, sophie montou em Ari. acomodou as pernas entre ele e, de olhos fechados, encaixou-se de qualquer maneira e galopou e segurou aquele órgão como um maestro que rege uma orquestra. sophie não pensava em nada. na mente de Ari, materializações de anseios agora acalmados. entre os dedos dele, mistura de seio e suor; entre os dedos dela, crescente fúria inchava de prazer.
de repente, no meio de toda aquela orquestra animalesca de sons e gestos firmes, sophie vislumbrou uma brilhante estrela pela janela e, quase no mesmo segundo, Ari soltou um grito de dor. seu coração havia sido fisgado por um orgasmo e, logo depois, por um imobilismo eterno... só quem ama conhece a eternidade.
ela ainda mirava a estrela. sentia seu corpo pulsar... ou era aquele minúsculo ir e vir da luz da estrela? sophie permaneceu ali, dona daquele enorme ser que tinha o olhar vidrado no teto... ou talvez no céu.
sophie levantou-se, arrumou sua bolsa, vestiu o casaco, deu o último beijo na testa do finado Ari e sussurrou, na esperança de que todas as pessoas do mundo pudessem sentir um ventinho quente e moralista ao pé do ouvido, sobre haver gente que é feita para viver e gente que é feita para amar.