Minhas memórias
Acordei às seis e meia da manhã tomando bando e comendo pão com hambúrguer. Eram as duas últimas fatias do pão de fôrma, aquelas que têm um gosto, cheiro e textura alterados e péssimos. Meu irmão disse que não é nada saudável comer algo assim tão gorduroso no café da manhã, como se eu ligasse pra minha saúde. Até meus trinta, não me preocupo com isso.
As ruas daqui já são parte de mim tanto quanto meu cabelo e minha memória, que caem aos pedaços, mas sempre estão ali, firmes e fortes. Disse ontem a um amigo da faculdade que nunca vou me acostumar com Niterói, nunca vou me adaptar. Tudo é quente demais e estranho demais. Dou de cara com o mar e me arrependo do que pensei.
Foi aqui que ontem, na aula de Pierre, que fiz minha escultura na areia. Um anjo sem asas morto, de costas, sendo tragado pela areia. Escrevi ainda ao lado uma poesia velha que nem gosto mais. Algo sobre a vida, mais ou menos assim:
Medusa
ver a vida é asssim:
você a olha nos olhos,
a vista se embaça;
e ela passa.
Passam por mim agora as pessoas a dez quilômetros por hora, fazendo jogging, sozinhas. Não que seja possível estar sozinho nessa cidade, não o é, nunca. Mas estar sozinho não é isso, não é relativo a estar ou não com uma pessoa por perto, porque, numa cidade como essa, nunca se está sozinho, mas todos precisamos de solidão. É que a gente ignora o fato de que há pensamentos na pessoa pela qual se passa enquanto faz jogging ao lado do MAC.
Preciso de algo para escrever. Papel e caneta. Procuro na banca de jornal, o cara diz que tem caneta mas não tem papel, mas se eu quiser eu compro um jornal e escrevo nele. Hah. As pessoas daqui não sabem o conceito de papelaria, elas aglomeram as coisas umas dentro das outras, fazendo aqueles lugares imensos onde tem tudo, menos uma papelaria.
As pessoas olham demais pra mim. Não sei se é a minha camisa dos hermanos, ainda da turnê Ventura, antigassa, porque todos sempre olham pra ela. Depois, olham pro meu cabelo, então seria ele? Só porque ele é grande e ligeiramente ralo nas entradas das minhas semi-carecas? Ah, é a minha cor. Sou branco demais pra ser uma pessoa de Niterói. É isso então, eu não posso ser daqui porque sou branco demais. não podem aceitar como cidadão uma pessoa semi-albina.
Preciso de algo para escrever desesperadamente. Nem que seja sangue e pele. Unha e carne. Mas não tenho unhas, as rôo todos os dias. E, julgando pelo jeito que me vêem, não devo ter sangue também. Entro nas Sendas, procuro em todos os cantos, mas não existem indícios de civilização alfabetizada nesse lugar desgraçado. E eu sou bobo demais, sou fraco demais, não consigo sair sem ter nada na mão. Talvez seja vergonha de entrar sem nada e sair com menos ainda. Achei aquele chá que ela um dia me recomendou, o de morango. E saindo de lá, vejo uma papelaria fechada.
Afinal, a culpa é minha se eu não me dei conta que ainda é cedo demais pra uma papelaria estar aberta. Mas mesmo assim busco uma, ando mais, porque não aguento mais tanto pensamento, tanta palavra dentro dessa cabeça ôca.
Ando Icaraí toda e não acho uma sequer. penso em pedir informações, mas as pessoas de Niterói parecem ignorar o fato de que se uma pessoa pede informação é porque ela está perdida. Dizem pra andar até a Miguel de Frias, ou whatever, e virar na Tavares de Macedo e procurar por lá que lá tem.
Sento na beira da praia. Preciso conhecer alguém. Não que eu não goste de quem eu conheço, mas preciso de alguém. Ontem eu falei praquele mesmo amigo da faculdade que eu ia pra Friburgo porque tinha antigos amigos lá. Ele me disse que eu estava renegando eles, os novos amigos, e insultando os outros, chamando de ex-amigos. Não entendi. Minha coluna pede arrego, minha boca pede por um café.
Queria conhecer alguém assim. Eu, com meu mini-bloco de um real e uma caneta nanquim. Ela em seu banquinho no balcão. Um blues bem blues no fundo, ela tomando um café, lendo um livro e fumando um cigarro. Eu olho pra ela e escrevo um poema qualquer que ela me inspire. Vou calmamente até ela, dou o papel com o poema e agradeço por ela ter me emprestado a poesia por um minuto para que eu pudesse capturá-la, e que ali está o resultado. Viro, volto pra minha mesa. Ela vem, diz que achou lindo, vai perguntar se eu sou poeta, eu vou dizer que não. Sou um arquiteto em construção.
Porque arquiteto é aquele artista incompleto. É o artista que precisa do apoio matemático e físico pra concluir suas obras com perfeição. Aquele artista que não conseguiu concretizar sua arte, um artista mestiço. É isso, um artista mestiço. Um artista que não conseguiu escrever o livro ou pintar o quadro, ou escrever a música. E isso me lembra de que preciso procurar uma papelaria.
Volto à beira da praia e lá você está. Te peço umas folhas do seu caderno, uma caneta emprestada, sento ao seu lado e vejo o horizonte. Escrevo finalmente uma poesia. Foi você que me fez essa poesia. Era assim que queria te conhecer.
Mas é tudo em minha mente, porque escrevo isso tudo em uma aula de GD enquanto o professor diz pra mim "minhas memórias".
As ruas daqui já são parte de mim tanto quanto meu cabelo e minha memória, que caem aos pedaços, mas sempre estão ali, firmes e fortes. Disse ontem a um amigo da faculdade que nunca vou me acostumar com Niterói, nunca vou me adaptar. Tudo é quente demais e estranho demais. Dou de cara com o mar e me arrependo do que pensei.
Foi aqui que ontem, na aula de Pierre, que fiz minha escultura na areia. Um anjo sem asas morto, de costas, sendo tragado pela areia. Escrevi ainda ao lado uma poesia velha que nem gosto mais. Algo sobre a vida, mais ou menos assim:
Medusa
ver a vida é asssim:
você a olha nos olhos,
a vista se embaça;
e ela passa.
Passam por mim agora as pessoas a dez quilômetros por hora, fazendo jogging, sozinhas. Não que seja possível estar sozinho nessa cidade, não o é, nunca. Mas estar sozinho não é isso, não é relativo a estar ou não com uma pessoa por perto, porque, numa cidade como essa, nunca se está sozinho, mas todos precisamos de solidão. É que a gente ignora o fato de que há pensamentos na pessoa pela qual se passa enquanto faz jogging ao lado do MAC.
Preciso de algo para escrever. Papel e caneta. Procuro na banca de jornal, o cara diz que tem caneta mas não tem papel, mas se eu quiser eu compro um jornal e escrevo nele. Hah. As pessoas daqui não sabem o conceito de papelaria, elas aglomeram as coisas umas dentro das outras, fazendo aqueles lugares imensos onde tem tudo, menos uma papelaria.
As pessoas olham demais pra mim. Não sei se é a minha camisa dos hermanos, ainda da turnê Ventura, antigassa, porque todos sempre olham pra ela. Depois, olham pro meu cabelo, então seria ele? Só porque ele é grande e ligeiramente ralo nas entradas das minhas semi-carecas? Ah, é a minha cor. Sou branco demais pra ser uma pessoa de Niterói. É isso então, eu não posso ser daqui porque sou branco demais. não podem aceitar como cidadão uma pessoa semi-albina.
Preciso de algo para escrever desesperadamente. Nem que seja sangue e pele. Unha e carne. Mas não tenho unhas, as rôo todos os dias. E, julgando pelo jeito que me vêem, não devo ter sangue também. Entro nas Sendas, procuro em todos os cantos, mas não existem indícios de civilização alfabetizada nesse lugar desgraçado. E eu sou bobo demais, sou fraco demais, não consigo sair sem ter nada na mão. Talvez seja vergonha de entrar sem nada e sair com menos ainda. Achei aquele chá que ela um dia me recomendou, o de morango. E saindo de lá, vejo uma papelaria fechada.
Afinal, a culpa é minha se eu não me dei conta que ainda é cedo demais pra uma papelaria estar aberta. Mas mesmo assim busco uma, ando mais, porque não aguento mais tanto pensamento, tanta palavra dentro dessa cabeça ôca.
Ando Icaraí toda e não acho uma sequer. penso em pedir informações, mas as pessoas de Niterói parecem ignorar o fato de que se uma pessoa pede informação é porque ela está perdida. Dizem pra andar até a Miguel de Frias, ou whatever, e virar na Tavares de Macedo e procurar por lá que lá tem.
Sento na beira da praia. Preciso conhecer alguém. Não que eu não goste de quem eu conheço, mas preciso de alguém. Ontem eu falei praquele mesmo amigo da faculdade que eu ia pra Friburgo porque tinha antigos amigos lá. Ele me disse que eu estava renegando eles, os novos amigos, e insultando os outros, chamando de ex-amigos. Não entendi. Minha coluna pede arrego, minha boca pede por um café.
Queria conhecer alguém assim. Eu, com meu mini-bloco de um real e uma caneta nanquim. Ela em seu banquinho no balcão. Um blues bem blues no fundo, ela tomando um café, lendo um livro e fumando um cigarro. Eu olho pra ela e escrevo um poema qualquer que ela me inspire. Vou calmamente até ela, dou o papel com o poema e agradeço por ela ter me emprestado a poesia por um minuto para que eu pudesse capturá-la, e que ali está o resultado. Viro, volto pra minha mesa. Ela vem, diz que achou lindo, vai perguntar se eu sou poeta, eu vou dizer que não. Sou um arquiteto em construção.
Porque arquiteto é aquele artista incompleto. É o artista que precisa do apoio matemático e físico pra concluir suas obras com perfeição. Aquele artista que não conseguiu concretizar sua arte, um artista mestiço. É isso, um artista mestiço. Um artista que não conseguiu escrever o livro ou pintar o quadro, ou escrever a música. E isso me lembra de que preciso procurar uma papelaria.
Volto à beira da praia e lá você está. Te peço umas folhas do seu caderno, uma caneta emprestada, sento ao seu lado e vejo o horizonte. Escrevo finalmente uma poesia. Foi você que me fez essa poesia. Era assim que queria te conhecer.
Mas é tudo em minha mente, porque escrevo isso tudo em uma aula de GD enquanto o professor diz pra mim "minhas memórias".

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