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terça-feira, 4 de março de 2008

um jazz improvisado

Mesas de granito congestionavam a praça de alimentação. De qualquer modo, elas refletiam as diversas luzes que me assaltavam o limitado horizonte visual. No meu horizonte mais próximo, um garotinho dentuço teve alguns espasmos como se fosse jogar pra mesa um bando de queijo gorduroso que provavelmente já lhe entupia as veias. Daqui consigo ver a comida amarela sendo mastigada pelo garoto e, a seu lado, o pai de barbas grisalhas a mergulhar os dedos não tão cabeludos no cabelo sedoso, demasiadamente sedoso, do dentucinho. O velho é vesgo e gargareja o refrigerante assim que o coloca na boca. Enquanto gastei meu tempo escrevendo isso, os dois se foram e a atração do horizonte passou a ser uma família que ocupava três mesas de granito. As crianças, de cabelos engomados, devoravam lanchinhos do Mc Donald’s e o que possivelmente é o pai, pois também exibe a cabeleira engomada, morde o sanduíche com uma enorme cautela para não pintar de manchas a camiseta semelhante a de todo jogador de golfe.

Logo à frente, postados em um palco bastante humilde, dois sujeitos arriscam um jazz e arrancam duas ou três palmas. Mas a verdade é que essa praça é toda muito desafinada. O ar reluz cheiros enjoentos pra caramba (não sei mais onde começam os perfumes e menos ainda em que pele terminam as frituras), olhares pouco envolventes e bastante inclinados para o umbigo, conversas esporádicas e certamente muitas blusas de listras, de quadrados e, naturalmente, de marca. Isso tudo faz meu nariz entortar quase tanto quanto a fritura de pastel que me incomoda e arrepia repetidas vezes.

O granito da minha mesa reflete oito lâmpadas da praça de alimentação. E o granito da mesa vizinha reflete o letreiro do Bob’s. Prefiro o meu granito; o pouco do que vejo nele me faz querer mergulhar no mundo que tá de cabeça pra baixo, em que daria para pisar no reflexo das oito lâmpadas e escurecer o metro quadrado em que me apoiei para descrever uma praça congestionada por uma atmosfera de jazz desafinado.

2 comentários:

Blogger Cecília Borges disse...

Muito bom, Juliana!
Várias mesas de granito por aí servindo de espelho. A sua espalhou o olhar sem desafino.
Bj!

5 de abril de 2008 13:07  
Blogger Eduardo Graca disse...

Juliana...adorei o incentivo! Acabei de voltar de férias e juro que vou conseguir respirar e voltar a escrever no blog.
Obrigado mesmo!
E vc, não vai escrever mais aqui na cidade onírica, não?
Beijos.

3 de novembro de 2008 11:44  

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