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quarta-feira, 21 de novembro de 2007

a dedo, um conto de amor

De forma categórica, sentaram à mesa na hora do jantar exatamente como faziam há anos. Mil voltas o mundo poderia dar enquanto ali estivessem; nada perceberiam. O momento já poderia ser registrado como ritualístico, ainda que, durante, nenhuma palavra essencialmente necessária fosse proferida. O horário sagrado era às sete horas da noite, porém atrasos eram admitidos, uma vez que Miguel participava de um grupo de estudos literários que, por não ser adepto a horários de encontro, era considerado inovador. Essas reuniões entre amigos eram feitas na cafeteria Portugal, na mesma mesa sete, há sete anos. A razão do número da mesa se deve à crença de que esse é um número perfeito e, obviamente, já foi bastante discutido e inserido em narrativas já elaboradas pelos participantes do grupo.

Eram sete horas da noite de uma quinta-feira. Miguel encarava o prato quadrado e estampado sem interesse. E esse comportamento do namorado nunca fora percebido por Clementine. Ambos saboreavam seu jantar em uma constante luta entre egos e temperos. A mesa circular permitia maior aproximação entre os corpos, mas maior repulsão entre as almas que, pesadas, não conseguiam contornar o ângulo de 180º onde poderiam encostar e repousar o coração. Corpos e almas não mais eram discernidos pelo peso, pela matéria, Clementine e Miguel tornaram-se meros bichos modificados pelo convívio social.

Miguel dizia aos amigos poetas, entre uma tragada e outra de charuto, que Azevedo havia retratado de uma boa maneira real-naturalista a relação entre homens e mulheres em “O cortiço”. Fazia referência a tal obra para descrever a relação com sua namorada C.K. Os amigos, na tentativa de desvalorizar as dores do companheiro, riam e tossiam e utilizavam o corpo para se manifestar irreverentemente e faziam comentários que deles podem ser extraídos as seis palavras: por isso que prefiro as putas!

De fora, eu podia flagrar a situação, reportá-la e compará-la a outros tantos curtas feitos por outros grandes cineastas. Não me parecia suficiente misturar o comportamento distante, literalmente, de meu amor platônico ao meu desejo de ser a chapliniana e garota fudida, Clementine. Tentando fazer uso da razão para organizar e analisar os fatos que, por serem tão abstratos, dificilmente poderiam ser encaixados à minha vida, tão tentada a respirar o concreto, procurei não misturar vida pessoal e vida profissional. Ser roteirista não é fácil para quem amou vozes e palavras ao invés de beijos e abraços... Hoje, não tão velha para sentir o amor pela sétima vez, apenas gostaria que meu Miguel, esteja na Terra ou no céu, não mentisse quando diz que é meu, pois meu coração, já abraçado ao dele, consegue ver o preto e branco do arco-íris (e suas sete cores) que existe na sinceridade de seus sorrisos e na imperfeição de suas palavras.

1 comentários:

Blogger livia bluebird disse...

:)
obrigada pelas palavras lá no amarelo..

gostei também.

boa noite!

3 de dezembro de 2007 às 15:35  

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